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Papo do Japa

Sobre a obrigatoriedade de usar equipamento digital …

8 de abril de 2015
nik

A Nikon é uma das maiores marcas dentro da fotografia. Já foi maior, principalmente nas décadas de 70 e 80, mas mesmo assim faz questão de ganhar mais e mais fãs ao longo dos anos. E foi justamente por isso que alguns amigos pediram minha opinião sobre o concurso promovido pela Nikon em parceria com a DOC Galeria, fato que eu evitei comentar até o momento, primordialmente por não ser usuário da marca. Entretanto, após ver inúmeros comentários falando a respeito do concurso ser apenas para “equipamentos digitais da marca”, eu decidi ler o regulamento para entender e, por fim, falar a respeito.

Digo, de antemão, que o concurso não foi feito para mostrar novos fotógrafos ao mundo, mas sim vender equipamento.

“Mas como assim? Não é tudo pela arte?” – Não, não é. E nem temos como culpar a Nikon por isso.

No atual sistema que vivemos, é preciso de lucro pra manter uma empresa, e a situação da indústria fotográfica não é das melhores há anos – e a Nikon é um destaque a parte dentro dessa crise. A empresa, que não há muito tempo passou pela “crise da D600” – foi proibida de vender o modelo na China – pois o governo a considerou um risco potencial para lesar os consumidores -, sofreu processos conjuntos na América do Norte e na Europa, etc – foi pega de surpresa com problemas de dead pixels na sua D810 e de flare na D750, que ela obrigatoriamente assumiu para não virar uma bola de neve igual a da D600. As vendas da Df, que seria sua tentativa de entrar no mercado com um modelo mais retrô, foram abaixo do esperado. Tudo isso, querendo ou não, machuca a empresa, que a cada ano que passa perde mais e mais lucro.

Isso significa que a Nikon vai falir, deixar de existir e afins? Não. Se a Polaroid e a Kodak, que estiveram em situações piores do que a Nikon, estão aí até hoje, não vai ser o número baixo de vendas que vai fazer com que a mãe da Nikon F suma do mercado. Adaptações devem ser feitas para que a empresa volte a ter lucro – coisa que outras empresas, como a Canon, a Fuji e a Sony já fizeram.

E é aqui que entra o tal concurso: ao obrigar que as fotos sejam feitas com uma câmera da Nikon, fato que deve ser comprovado através dos metadados do arquivo gerado pela câmera, a empresa simplesmente negligencia totalmente seu passado. Imagine a quantidade de fotógrafos talentosos que, por preferência pessoal, optaram por fotografar com filme e usam câmeras clássicas da marca, como a F3, a FM2, ou até mesmo a moderna F100, e que simplesmente tem uma porta fechada na cara por não usarem equipamento digital. Quer dizer, o concurso é só para câmeras da Nikon – o que é compreensível, já que as fotos serão expostas na Galeria Nikon – mas, se você não usa Nikon digital, você não pode participar. Justo? Ao meu ver, não.

Isso me leva a crer que a exposição vai ter diálogos desse nível:

– Essa é a foto da Maria Chiquinha. Ela usou uma D810 com a AF-S 24-70mm f/2.8G.
– Também, com um equipamento desses até eu faço uma foto igual.

E assim, todo o processo criativo da Maria Chiquinha, os anos que ela estudou fotografia, as horas que ela gastou na pós produção… Tudo isso, simplesmente, morre. O que importa, no final, é o quanto de dinheiro ela gastou de equipamento – digital, com certeza.

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