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Notícias e Entrevistas

De estrelas o céu está cheio, queremos naked friends.

17 de Fevereiro de 2016

Ale Ruaro fala por si e por toda humanidade em fotografias profundas. As imagens que realmente desnudem (se assim posso falar) os arquétipos e preconceitos de gerações ganharam, por mérito e excelência, dezenas de exposições e prêmios Brasil e mundo afora.

Quando eu vi as fotografias de Ale pela primeira vez – há alguns anos -, eu vi a pele. “Como assim a pele, Monike?”, você deve se perguntar. É tão raro conseguir, através de uma imagem, ver, sentir outro sentido que não seja a visão… E aquilo me perturbou um pouco. Positivamente.

E isso ainda me surpreende hoje. Em pensar como a pele e, somente ela, diz muito mais do que palavras. É como se o tato pudesse ser aguçado através das fotografias; e a visão e todos os outros sentidos perdessem um pouco de força quando admiramos a obra de Ale.

Mas vamos parar de piração. Vamos aos fatos e ao que já é concreto.

Um dos projetos mais visados deste fotógrafo gaúcho é o Naked Friends. É o registro mais natural de conhecidos e que, revestidos de outros elementos, contam quem são essas pessoas, porém sem precisar de parágrafos, apresentações, frases de efeitos ou segundas intenções. Contam, de uma forma despretensiosa, os segredos calados de seus fotografados.

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Para entender um pouco mais do cabeça deste fotógrafo e de seus projetos, preparamos uma entrevista com perguntinhas chave. Vamos fazer umas das possíveis leituras sobre Ale?

Monike: Ale Ruaro. Fotógrafo. Artista. A gente sabe que não se deve definir muita coisa na arte, na fotografia, na vida. Mas se você tivesse que ajudar um amador das artes a descobrir seu estilo, o que você indicaria?

Ale: Aprender a ver, a viver, pois toda sua vivência poderá ser vista na sua Arte.

Monike: O seu projeto, Naked Friends, é uma (re)leitura do corpo nu, sem filtros, sem interferências maiores. Como é retratar estes seres e registrá-los de forma tão intensa e ao mesmo tempo tão transparente? / E mais, como é para você o processo de “comunicação”, de “conexão” com o fotografado; gerando essa intimidade, de entrar no espaço tão particular de cada um?

Ale: Longas histórias cercam esse projeto, essas pessoas. Todas de alguma forma foram conectadas por conhecidos, por fotografados, por amigos. E a maioria eu fotografei de uma forma inusitada, sem imaginar que iria fotografar… Aí rola um convite ou até mesmo um pedido do amigo para ser fotografado. Muitos são fotografados em lugares que tem alguma conexão energética ou até mesmo lugar onde a pessoa tem medo, para quebrar um paradigma pessoal. A intimidade é tratada por mim como ela deveria ser tratada pelo mundo; e as pessoas acabam sentindo essa naturalidade na maioria das vezes.

Te confesso que amo fotografar pessoas que não estão felizes com seu corpo, que tem vergonha, pois eu acabo passando essa tensão para a minha lente e o resultado em seguida será impresso em um bom papel e exposto em uma galeria.

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Monike: Você tem uma lista extensa de premiações e exposições. No exterior e no Brasil, você tem trabalhos diferenciados. Como tem sido essa trajetória? Expor seu trabalho, colocar à disposição de quem quiser apreciar…

Ale: Sempre dou o meu máximo e acho que essa energia está batendo em algum lugar e retornando em forma de reconhecimento, estou vivendo um momento muito importante, o momento de dividir tudo que ando fazendo com o espectador, com o amante de fotografia, de arte. E ter o feedback do espectador é maravilhoso, pois dá muita força para continuar a caminhada, que é longa, tem que ser longa.

Monike: Justamente por já ser reconhecido, posso te fazer uma pergunta que muitos artistas visuais se fazem: como conseguir fazer a arte fluir mais intensamente? Vemos muitos artistas postando seus trabalhos nas redes sociais e, às vezes, parece ser um caminho solo. Existem outros e sabemos. Vocês tem feito uma trajetória forte na arte. Como expor seu trabalho e fazer a veia mais autoral e artística pulsar e, até, ser capitalizada para ser a renda principal do artista?

Ale: Não gosto de publicar excessivamente, procuro fazer quando tenho uma premiação, uma exposição, uma matéria sobre meu trabalho, pois quero um público seleto e orgânico. As exposições vem surgindo. O livro que publiquei em 2015 também me abriu algumas portas e acho que o segredo é trabalhar duro e acreditar muito. Trabalhar bem e deixar fluir.

Questões financeiras são complicadas, pois existem milhões de formas de viver de arte, cada um tem que encontrar seu caminho, entrar de alguma forma no circuito, ser conhecido e o resultado vem.

Monike: Já li que seu trabalho soa às vezes até como “apologia ao sexo”. O que você acha das definições ou indefinições que seu trabalho recebe?

Ale: Meu trabalho é totalmente livre para ser julgado, adoro saber que cada um vê de uma forma e que no final ele cumpre o seu papel: que é desmistificar, quebrar o pré conceito sobre tabus, principalmente sobre o corpo. Fico muito feliz quando pessoas em momentos importantes de sua vida me procuram para documentar seu corpo neste momento, transformá-lo em uma obra, esta que não terá mais nome, endereço, idade.

Ale terminou a entrevista de uma forma muito sutil, assim como seu trabalho: “querida, por favor, faça um filtro se precisar. Não quero de forma alguma passar estrelismo”. E tem muito disso, né?! Da fotografia e da arte – e por consequência seus autores – estarem em uma linha tênue do que é a valorização extrema ou o estrelismo.

Vamos deixar de conceitos e fazer somente a arte pela arte ser a estrela. Seus autores são (apenas) cria-dores.

Seja uma Naked Friend! 🙂

Conheça mais do trabalho do Ale Ruaro no site aleruaro.photoshelter.com.

Be brave and gentil,
Monike Luize Schlei Furtado