Papo de Fotógrafo Podcast

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Qualidade x Quantidade

19 de Fevereiro de 2016

Em meados de 2014 eu escrevi um texto. Em 2016 fui convidado para escrever artigos neste site que você esta a ler e resolvi revisitar aquele antigo texto de 2014. Mas por quê?

Começava mais ou menos assim:

Já faz bastante tempo que mudo constantemente de opinião logo, mudo meu trabalho. E acabo apontando minha carreia para um lado. Tenho um certo tempo que terei de dispor, outro tantão de esforço a fazer e mais um tanto de dinheiro que terei de receber (minhas contas no final do mês sempre chegam) e ao mesmo tempo vou ter outro tanto para investir.

Mas há sempre uma dúvida que vai assolar fotógrafos por aí (independente da área de atuação). Devo ter quantidade de clientes ou clientes de qualidade? Fato é que em qualquer uma das escolhas, seja ela pela quantidade ou pela qualidade se pode alcançar o “sucesso”.

Existem muitos casos de fotógrafos que mesmo sem tamanha técnica ou inventividade criativa chegaram lá. Como? Trabalhando muito mesmo e investindo seu tempo em acumular quantidades de fotografias e clientes. E independente do caminho que você escolha, a quantidade poderá não ser seu rumo mas uma pequena parcela de atenção ela deveria lhe tomar, afinal como comprovar qualidade sem ao menos uma quantidade mínima?

Vou te contar que foi nas águas da quantidade que naveguei no início de minha fotografia. Acreditei que era melhor ter muitos “freelas” para fazer e estar presente em muitos casamentos seria melhor do que me focar em poucos. E vou te dizer que foi absolutamente importante para minha maturidade fotográfica aquela quantidade maluca de casamentos que fiz naquele período. Mas – sempre tem um mas – com a quantidade veio junto a sobrecarga e a acomodação. Desmotivado (porém bem remunerado) eu conseguia dar no máximo 70% de minha energia para cada um dos trabalhos, os outros 30% gastava em reclamar ou tentando fazer valer o dinheiro que vinha através de todo aquele suor sufocante. Mas esse caminho era viável para alcançar o objetivo. Quanto mais trabalho, mais fotos eram disseminadas por aí, mais contatos eram feitos e consequentemente mais contratos fechados, trocando em miúdos mais dinheiro que entrava. Você acaba caindo na armadilha da ciclo vicioso. Sair do ciclo parecia jogar dinheiro fora e ninguém gosta de queimar dinheiro. Repito, é certo que aprendi muito sobre mim e sobre a fotografia nesses tempos.

Mas também caminhei em um outro cenário, onde esta preocupado apenas com qualidade. Você gasta todo seu tempo e investimento e fazer o seu melhor. Começa a ter tempo e paciência para se doar integralmente, 100% ao invés dos 70% anteriores. No meu caso, casamento após casamento priorizei criar cada vez melhores imagens e, por ter menos quantidade, fui mostrando elas para um número mais limitado de pessoas. O mercado acaba se limitando também com isso, mas toda nova pessoa que tem contato com suas imagens fica instigado a ver mais e, percebe que você é um fotógrafo constante e que se dedica absolutamente a entregar as melhores fotografias possíveis. Eventualmente percebem que não foi uma “sorte” mas sim fruto de seu trabalho (mesmo que não entendam quão duro foi).

Posso lhe garantir que com o passar o do tempo o que parecia um mercado limitado vai se expandir 3 ou 4 vezes mais do que jamais imaginou que fosse possível de atingir. Porém – tudo sempre tem um porém – você não vai conseguir atender a todas aquelas pessoas pois esta focado em fazer o melhor e qualidade leva tempo, te obriga a trabalhar mais duro e talvez 100% não sejam mais suficientes e terá que dar um pouco a mais que isso.

Ótimo, em algum momento da minha carreira eu cheguei a uma conclusão. Eu deveria trabalhar pautado na qualidade.

E aqui mora o mais belo dos paradoxos que conheço. Como chegar a um nível de excelência sem fazer muito e em muita quantidade? Uma vez, numa conversa com um de meus heróis da fotografia ele me perguntou quantas vezes por semana o Messi ou Neymar (não lembro direito que era o atleta) jogava bola. Esses caras jogam todos os dias, muitas horas, certo? E como querer melhorar minha fotografia fotografando somente 30 (é meu atual número) vezes num ano? Resposta fácil, atitude difícil e bota difícil nisso. Fotografando mais tudo, sobre tudo o tempo todo. Fotografando inclusive sem a câmera. Essas serão suas horas de treino para quando chegar na final do campeonato, chegue lá e faça o gol da vitória!

Já passei por todas as fases e optei pela qualidade, sei que ainda estou longe de chegar na que desejo mas continuar trabalhando muito, dormindo pouco, estudando um pouco mais e me dedicando a prestar o melhor serviço possível para os apenas 30 casais que conseguirei atender. E é este o caminho que recomendo. Doe mais do que 100% que um dia a sua oportunidade chega e quando ela aparecer você vai estar pronto para agarrar com unhas e dentes.

Então, qual o motivo de revistar esse texto de 2014? O motivo é mais simples do que parece… A atitude de doação completa continua penosa. Cansa e as vezes você pode desanimar, mas repensar tudo que fiz nos últimos dois anos e ver hoje que tiveram resultados me renova as forças para trabalhar ainda mais forte nos próximos 2, 5 e 10 anos.

Use deste texto para te reabastecer também. Continue aí com seu trabalho duro que mesmo que seja ultra nítido e não tão perceptível, um dia após o outro faz muita diferença e daqui a um ano você vai olhar para trás e perceber como eu percebi. Não importa em qual área você atue, e nem em qual região você se citua. Esse caminho é igual para todos nós fotógrafos.

Quero saber de você agora, qual o seu caminho, no que acredita…. Concorda? Discorda? Comenta aí… Temos de espalhar a discussão por aí para fazer pensar!

Abraços fortes.
Rafael Karelisky

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Ouça nosso bate-papo com o Rafael Karelisky: A história se repete!