Papo de Fotógrafo Podcast

Menu
Histórias e Pensamentos

Agradeça aos teus haters

27 de outubro de 2016

Digamos que você foi um dos finalistas para ganhar o Oscar de melhor fotógrafo. Na hora de anunciarem o prêmio, seu nome é mencionado. Seu coração acelera, a música sobre, a câmera foca em ti, e você tem que ir até lá, receber a estatueta, e fazer um discurso. É o prêmio mais importante da noite, então há um pouco mais de tempo para falar.

A pergunta, neste momento, é: A quem você agradeceria?

Há várias teorias de construção de personalidade. Uma delas diz que somos a médias das cinco pessoas com quem mais convivemos. Então, quem são elas, que te fazem ser quem você é? E, mais importante, quem te influenciou a ponto de ser o fotógrafo que você é, hoje.

A gente pode agradecer a quem nos incentivou. Esposa, que diz pra ti, quando você vai sair de casa para cobrir um evento: Vai lá, amor. Faz o teu melhor. À tua mãe, que a cada foto postada no Facebook, vai lá, curte e ainda escreve um comentário elogiando o teu trabalho, cheia de orgulho. O teu cliente é alguém que poderia receber um agradecimento. Afinal, ele confiou em ti para registrar momentos importantes, ou criar uma imagem do produto dele, e transforma-lo em algo desejável.

Eu cheguei a uma conclusão: muito de quem somos, do caminho que percorremos profissionalmente, se deve aos críticos, aos mau-pagadores, aos falsos parceiros, ao hater do grupo do Facebook que diz que o teu trabalho é ruim e você é um babaca. Estes caras são responsáveis por fazermos escolhas todos os dias. A principal delas é: dou ouvidos, ou continuo e provo que estão errados?

Digo isso porque já passei por algumas situações que me colocaram numa posição de ter que escolher se parava ou seguia. Na faculdade, enquanto cursava publicidade, tive oportunidade de fazer algumas leituras de portfolio. Numa delas, vi o professor que estava avaliando pegar uma das minhas fotos e rasgar na minha frente, dizendo que o trabalho era ruim e eu deveria fazer outra coisa da minha vida. Não dei ouvidos, e mais de 15 anos depois, estou aqui, fotografando e ainda tentando provar que ele estava errado.

Quando decidi fotografar casamentos, comecei a montar portfolio fazendo segunda câmera para um fotógrafo que também estava começando. Em um ensaio que tinha marcado, convidei-o para me acompanhar. No resumo da história, ele levou equipamento, e fotografou junto. Na inexperiência, não falei que ele estava lá para fazer assistência, e não fotografar. Depois, descobri que ele além de ter fotografado, e me feito trabalhar sozinho, ainda passou fotos para a gestante sem me consultar, e a convidou para fazer o ensaio newborn do filho dela. A moral da história é que ele é um dos responsáveis, através desta atitude comigo, de eu estar onde estou.

As vezes sou “grosso” nas respostas que dou em alguns grupos. Pelo menos é o que as pessoas me dizem. Provavelmente muitos deles vão colocar na cabeça que precisam me provar que eu estou errado. E vão evoluir como fotógrafos, vão conquistar clientes, trabalhos importantes, e talvez até prêmios. Eu vou ter uma pequena parte nisso, assim como todas as pessoas que passarem e as colocarem na posição de ter que decidir se continuam ou param de fotografar.

Elogios são ótimos. Fazem a gente se sentir melhor conosco. Mas, ao mesmo tempo, eles nos acomodam, não abrem espaço para melhorias, para evoluções. A dúvida, a necessidade de provar que alguém está errado, de esfregar o resultado positivo na cara de quem disse “Teu trabalho é ruim”, é o que realmente faz a gente dar mais um passo, entender onde estamos errado, o que precisamos fazer para sair daquela posição de um fotógrafo que tem um trabalho ruim, para alguém a ser respeitado.

Então, quando estiver lá no palco para receber a estatueta de melhor fotógrafo, agradeça a quem não te incentivou, a quem não te disse palavras gentis, a quem quase te fez desistir. Esses são os responsáveis por você estar ali, como melhor fotógrafo.

———-

Yul Barbosa
www.emotecinephoto.com.br

%d blogueiros gostam disto: