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Histórias e Pensamentos

Último texto de 2016 sobre fotografia!

3 de janeiro de 2017
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Imagina a seguinte situação: você descobre que quer ser barbeiro. É algo que está em voga hoje, com centenas de barbearias pipocando nos grandes centros. Só na minha cidade, com menos de 250.000 habitantes, deve ter umas 20. Desde as mais “modernas”, até as mais tradicionais.

Dai, neste ímpeto de cortar cabelos e barbas alheios, tu vai lá e compra uma dessas máquinas. Eu tenho uma, já que eu costumava cortar meu próprio cabelo e minha própria barba. Custou 32 reais no Rissul aqui de perto de casa. E, depois de comprar a máquina, vai lá e monta uma página… “Fulano de tal – barber stylish”. Em inglês é mais legal, dá mais “presença”.

Mas tu ainda não sabe cortar cabelo, ou fazer a barba. Decidiu ser barbeiro pq acha legal, e tá na moda. Decide dar o corte para um amigo, ou faz um sorteio na tua página, só pra conseguir cortar de alguém, fazer uma foto “bala” e postar na tua página. Depois dessa foto postada, quem sabe surgem outros trabalhos.

Mas tu ainda não sabe cortar cabelo ou fazer a barba. E descobre que existe um grupo no Facebook, voltado para barbeiros. Entra nele, e posta a seguinte frase “Vou fazer minha primeira barba. Me deem dicas”. Alguns comentam com dicas, outros te xingam (com razão, e eu explico mais abaixo pq), outros mandam fazer um curso, alguns dizem “Mete fixa, não dá bola pra quem diz pra não fazer, é só inveja e querem te colocar pra baixo”, e no final tu não aprendeu a fazer barba, como achou que aprenderia se postasse no Facebook.

O cara que ganhou o sorteio aparece, senta na tua cadeira (improvisada na cozinha da tua casa, afinal tu não tem barbearia ainda). Tu vai lá e corta. Fica uma bosta, mas tu acha que tá lindo. Tá uma bosta pq tu não tem conceito nenhum de barbearia, nem técnica, nem ao menos teoria. Faz a foto, posta na página, e também posta no mesmo grupo, agora pedindo opiniões. “Tá uma bosta, vai estudar” comenta um. “Tá massa, conceitual” comenta outro. “Curti as costeletas”, um terceiro. “Corta mais dessa forma” e coloca uma foto nos comentários um quarto.

Aparece um interessado. Tu vai lá e corta. Mesma coisa, tá uma bosta, mas tu acha que tá ótimo. Não sabe quanto cobrar, vai no grupo, pergunta como cobrar. Muitos dizem quanto cobram, tu cobra 10% menos, afinal tá só começando. O terceiro interessado. Quarto. Quando vê, pelo teu preço, tua agenda tá cheia… E tu não sai do lugar, não tem grana pra abrir um espaço, os clientes só aparecem uma vez, não voltam uma segunda. Tu libera as avaliações na página, tudo 5 estrelas, a maioria de amigos que nunca cortaram contigo.

Até que tu decide que barbearia não é pra ti, e vai fazer outra coisa…

Agora substitui barbearia por “fotografia”. Essa é a realidade do mercado de fotografia hoje.

Eu acompanho este grupo TODOS OS DIAS, faça chuva, faça sol, com ou sem computador funcionando (neste momento ele está em 50% do desempenho normal). E todos os dias eu vejo gente que comprou câmera, fez meia dúzia de clicks, posta as fotos no grupo e pergunta “O que acharam?” Eu penso “Respondo com sinceridade e digo que está uma bosta? Ou digo que tá boa, segue fotografando?” Se responder que tá uma bosta, vai chover uns “Mais humildade, por favor” ou uns “Até parece que já começou sabendo”.

As pessoas acreditam que o grupo é uma espécie de Matrix, que basta postar a foto, as pessoas vão comentar o que acharam e magicamente as próximas fotos que fizerem vão melhorar.

Deixa eu contar uma coisa pra vocês: fotografia é um monte de coisas. Mas, é principalmente CONHECIMENTO. Esqueçam aquela imagem do cara que compra a câmera e uma musa surge, ele se inspira e sai fotografando maravilhosamente bem. Tirando um pouco de sorte (que eu não acredito, já que sorte, pra mim, é quando a oportunidade encontra o preparo e a capacidade de se aproveitar daquele momento), a grande maioria dos grandes fotógrafos ESTUDOU. Foi lá, leu uma porrada de livro, fez uma caralhada de workshops, foi em um monte de congressos, leu mais uma porrada de livros, pegou a câmera e foi pra rua. Praticou, praticou, praticou, praticou, até achar que tava meia boca, e praticou mais. Jogou um monte de coisas fora, de fotos que achava que não prestava, e queimou mais uns negativos.

Tu consegue imaginar o Tião Salgado vindo num grupo e perguntando “O que acharam? O que posso fazer pra melhorar?”

“Ah, mas é o Sebastião Salgado. O cara é phoda”. Sim, muito. Mas, assim como TODO MUNDO, começou do zero. Estudou pra caramba, exercitou o olhar, praticou um monte, colocou a cara a tapa, soube entender o próprio trabalho, praticou mais um pouco, e depois de quase 50 anos de fotografia, está onde está. Não foi da noite para o dia. Não foi em grupos de fotografia. Não foi fazendo perguntas que o Google está ali pra responder bem mais rápido. Não perguntou pro coleguinha do lado com qual câmera e lente ele fez a foto, mas sim se perguntou o que levou o cara a fazer aquela foto.

Perguntas erradas obtém respostas erradas. Tu não vai achar a resposta para a tua pergunta de como melhorar tua fotografia, mostrando UMA foto e achando que o pessoal vai te dar o mapa das minas do rei salomão, e tu vai magicamente melhorar teu olhar. O olhar não se desenvolve perguntando para os outros. Se desenvolve perguntando a si mesmo, se questionando, se entendendo.

Fotografia é uma junção de uma porção de coisas. Começa pela teoria. Tu conhece alguma teoria sobre luz? Sobre física? Fotografia é luz, e se tu não entender de luz… meu amigo, tá ferrado. Sem luz, não há fotografia.

Muita gente confunde fotografia com “colocar uma pessoa na frente da minha câmera, colocar umas produções zoadas, umas poses maneiras que eu copiei de outros fotógrafos e pah, tá pronta a fotinha pra colocar no insta”. Uma foto bem produzida, mas mal iluminada sempre vai ser uma foto ruim.

Depois da teoria, vem a técnica. Tu conhece como funciona a relação entre abertura, velocidade e ISO? Sabe como congelar um objeto ou dar mais profundidade de campo para a relação entre objeto principal e fundo? Entende a relação da distância focal e a distorção do quadro? Sabe como tirar proveito disso?

Mas, fotografia não é só teoria e técnica. É criatividade, é referencial visual, é entender como o MUNDO funciona. É saber como dirigir um modelo, e não apenas copiar poses prontas na internet. É saber como iluminar a cena, e não apenas perguntar qual câmera, lente e flash o cidadão usou pra uma foto que tu pensa “Poutz, queria ter feito essa foto”. Não fizeste pq tu não é o cara que a fez, não tem a mesma visão de mundo que ele. O equipamento é o de menos.

Quer ser fotógrafo? Pense como um. Veja o mundo como um. Vá para a rua se câmera, e olhe o teu entorno. Teus olhos precisam ver como a câmera.

E, não, não é postando as tuas fotos de flores, pôr-do-sol, gatos, teu filho brincando, tuas fotos de celular, que vão me dizer se tu pode seguir pensando em ser um fotógrafo, ou se para. Se for só isso que tu quer saber, pode parar agora de pensar, vá fazer outra coisa na vida. Se tu realmente quer ser fotógrafo, teu lugar não é aqui neste grupo perguntando se as tuas fotos estão boas. É SE PERGUNTANDO se as tuas fotos estão boas. É olhando para o que tu fotografa, e entendendo COMO tu fotografa.

E principalmente, PORQUÊ tu fotografa. Teu motivo é mais importante do que o como as pessoas olham tuas fotos. E esse motivo tem que estar bem claro nelas. Afinal, é a tua visão de mundo. Eu vejo o tempo todo fotos esteticamente bonitas, mas vazias. Digo que são como Ferraris sem gasolina: bonitas de se olhar, mas não levam a lugar algum.

Quer ser fotógrafo? Aja como um. Mas, esqueça o lance de “the way of a photographer’s life style” de ser. Esquece fazer tatuagem de câmera, esquece comprar camiseta que afirme que tu é fotógrafo. Encare a fotografia como uma ferramenta, uma forma de atingir coisas maiores, objetivos maiores. A fotografia não pode ser tua vida, tem que ser apenas o reflexo de como tu vê a vida. Colocar pra fora o que tu acha do mundo e das pessoas. Nessas horas, teu coração é mais importante. Sem coração, não há alma na fotografia. Ela se torna apenas um amontoado de luzes e sombras.

Quer ser fotógrafo? Te entrega. Pra quem tu fotografa, principalmente. Para a rua, para os casamentos, para as crianças, para as famílias. Faça parte do momento, seja como observador, seja como testemunha, seja como contador de histórias. Escreva com a luz. Conheça a ortografia e a gramática da luz. E dai tu será um fotógrafo.

“Minha foto está boa? O que posso melhorar?”

Essa pergunta, só tu consegue responder. Se não ver o que pode melhorar na tua própria fotografia, então não está olhando direito, não está procurando nos lugares certos, e vai ficar sempre dependendo dos outros pra evoluir.

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  • ymbarbosa

    Preciso começar a ser mais “sucinto” nos meus textos hauhauauhahuauha