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Tecnologia e Equipamentos

Quer migrar para médio formato digital? Talvez não seja uma boa ideia.

8 de fevereiro de 2017

A fotografia é feita de momentos, e a internet ao redor de quem respira fotografia – amadores, profissionais ou simplesmente entusiastas – tem tempos em que um determinado assunto se torna o centro das atenções de todos. O ano passado, 2016, foi um desses anos, e tivemos uma boa gama de “assuntos da semana” no quesito fotográfico: tivemos lançamentos da Canon (EOS 80D, EOS 5D Mk IV, EOS M5), Pentax (K-1), Nikon (D500, D5), Panasonic (GH5), Sony (A99 II) e mais uma cacetada de lançamentos dentre os fabricantes. Dois lançamentos, porém, chamaram muito mais a atenção de todo o mercado fotográfico: a Hasselblad X1D e a Fuji GFX 50S, ambas câmeras de médio formato digital.

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Hasselblad X1D, a menor câmera de médio formato do mercado (preço do corpo: USD 9.000,00).

Ambas as câmeras geraram um buzz grande na internet – internacionalmente – devido aos grandes avanços que trazem ao panorama geral da fotografia. Elas seguem uma tendência de tentar aproximar os fotógrafos de outros segmentos – como de casamento ou documentaristas – ao uso do médio formato digital em seus trabalhos, cujo uso era praticamente resumido a fotógrafos de paisagens ou publicidade.

O médio formato vem desde os tempos áureos da fotografia, e houve uma época em que ele era o tamanho convencional para quem se aventurava com uma câmera na rua – até a chegada da Leica e da popularização do 35mm -, e como tal, sempre trouxe prós e contras para seus usuários. E por mais que a tecnologia seja tentadora, assim como todo sistema é necessário que o próprio fotógrafo analise a situação e entenda se esse equipamento vai trazer algum tipo de ganho ao seu trabalho.

Se você está confuso, mas ao mesmo tempo flertando com a ideia de adquirir um sistema de médio formato digital, esse artigo vai te ajudar a analisar um pouco mais a fundo se você possui uma real necessidade – e fluxo de trabalho – para esse tipo de equipamento.

Fotografar com médio formato é diferente de fotografar com 35mm, seja digital ou analógico. O foco é mais crítico, a profundidade de campo é mais rasa, a fotografia se torna mais lenta e você precisa ficar mais atento aos detalhes da sua imagem. Definitivamente, médio formato não é o tipo de formato mais rápido – e é justamente isso que você deve entender. Eu não vou estender muito o assunto sobre médio formato analógico, visto que temos um episódio inteiro do Papo Analógico sobre o tema, então vou focar exclusivamente no médio formato digital a partir desse ponto.

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Fuji GFX 50S, a médio formato digital mais barata do mercado (preço do corpo: USD 6.500,00).

Médio formato vai na contramão da atual visão mercadológica da fotografia, oferecendo um grande passo no fator “pega leve” para o fotógrafo. Faça a soma do aumento considerável de informação em seus arquivos + aumento de resolução. Pode ter certeza de que, se você faz 1.000 fotos por casamento e demora uma semana para selecionar as melhores, você vai demorar pelo menos três semanas se fizer 1.000 fotos com uma câmera de médio formato digital – e o unico jeito de contornar isso é fotografando menos. O contraponto, porém, é que você tem arquivos com mais qualidade.

Resumidamente, a ideia do médio formato digital não é vencer pela quantidade, e sim pela qualidade. Os fotógrafos precisam ter isso em mente pois, ao agregarem um sistema de médio formato digital ao seu trabalho, o fluxo irá ter um ritmo completamente diferente, e muitas vezes até os softwares que você utiliza serão modificados. Ou seja, esqueça fotografar aquelas sequências de dezenas de fotos para pegar a lágrima no rosto do pai do noivo no momento certo, por exemplo: o médio formato digital ainda não é para esse tipo de coisa.

Outra coisa a se levar em consideração é que as câmeras de médio formato digital não estão a par em termos de ISO alto quanto às câmeras mais “populares” atuais. Pode parecer estranho, mas a Hasselblad X1D, por exemplo, tem o desempenho em ISO 6400 pior que o da Canon EOS Rebel T3i, e é dito que a Fuji GFX 50S não tem o desempenho nem próximo nesse sentido das irmãs Fuji X – e, claro, considerando o segmento do médio formato digital, isso nunca foi uma necessidade a ser melhorada, visto que não existia a demanda. Agora, com a “popularização” desse tipo de sistema, é bem capaz dos fabricantes começarem a melhorar o desempenho de suas câmeras, mas isso não é uma realidade no momento.

Médio formato digital é uma realidade diferente da maioria dos fotógrafos. A questão não é ser mais difícil ou mais chato de se trabalhar, mas sim ser diferente. O fluxo atual da grande massa de fotógrafos não vai se sustentar se um deles simplesmente inserir o médio formato digital em sua bolsa de trabalho e não mudar a mentalidade. Médio formato é diferente, e como tal deve ser usado de um modo diferente – e se você não está disposto a pensar de outra maneira, talvez seja muito mais interessante investir na câmera flagship do atual fabricante que você utiliza – afinal, a médio formato digital mais barata do mercado ainda é mais cara que uma Canon EOS 1Dx Mk II, Sony A7R II ou Nikon D5.

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