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Kilombo: a África que habita em nós

23 de agosto de 2018

Exposição de fotografia reverencia a resistência negra no Brasil

O Brasil e sua gente saltam aos olhos de uma fotógrafa gringa. Mas não espere ver aquelas imagens de sempre, da miséria e violência que tornam a população um material plástico de freak show. Maria Daniel Balcazar, fotógrafa documental e artística boliviano-americana, nos vê com um olhar afetivo de quem conhece bem a alma nacional. A alma de pele negra, miscigenada com índios e brancos, mas ainda afro. As fotos da exposição Kilombo, que fica em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal de 6 de setembro a 14 de outubro, traduzem sua profunda admiração e respeito pela cultura afro-brasileira e sua força de resistir e transcender. A artista faz uma visita guiada sábado, dia 15 de setembro, às 16h.

Kilombo também batiza um cuidadoso livro de arte da artista, editado pelo fotógrafo norte-americano David Alan Harvey, um dos monstros sagrados da profissão, que trabalhou para o The New York Times, National Geographic e é membro pleno da Agência Magnun. David tem Maria Daniel Balcazar como pupila há seis anos e cuidou de cada detalhe da publicação impressa na Itália, que a fotógrafa lança ainda esse ano. A abertura da exposição brasileira será dia 5 de setembro, das 19h às 21h. Após a temporada carioca, Kilombo segue para Nova Iorque.

A exposição exibe 32 fotos que congelam em imagens a vida cotidiana e o sincretismo religioso das práticas e costumes culturais afro-brasileiros. Sejam eles em favelas, quilombos, terreiros, procissões ou cemitérios. Estejam eles no Rio de Janeiro, Bahia ou Minas Gerais. A curadora da exposição, Vivian Faingold, ressalta a reverência que a artista deixa transparecer “ao capturar imagens que mostram diferentes aspectos de uma diáspora africana, que começa a ser recontada pelos descendentes de seus protagonistas.”

A escolha do nome da mostra e do livro foi dedicada ao território de resistência e de transcendência que a palavra africana – daí a grafia com K – significa hoje para brasileiros e estrangeiros. “As palavras se mantém vivas e estão sempre sendo ressignificadas. E Kilombo será sempre um território de luta, esperança, resistência e de formação de identidade de uma nação”, diz Maria.

Ela conta que iniciou este projeto no Rio em 2015, visitando vários lugares diferentes onde populações e comunidades de afrodescendentes vivem e se reúnem, e participando de rituais de candomblé e umbanda e de manifestações culturais como a capoeira e o samba. “Encanta-me a universalidade e vitalidade de tradições, simbolismos e sincretismos culturais que buscam realçar a beleza, a dignidade e o extraordinário do cotidiano”, diz a artista.

Maria morou com a família em Copacabana quando era menina, e já adulta fazia frequentes visitas ao Brasil, especialmente a Salvador, onde seu pai vivia. Mas foi na Academia Nacional de Bellas Artes em La Paz, Bolívia, e na Gerlerborgskolan, em Estocolmo, Suécia, que estudou pintura. Formada em Comunicação Social e Jornalismo no programa de graduação da Universidade Univalle e na pós-graduação da Universidade Complutense de Madrid, ambas na Bolívia, ela dedicou-se à fotografia na Universidade de Boston e participou de workshops com David Alan Harvey, Cristina Garcia Rodero e Christopher Rainer.

As fotos de Maria são a visão amorosa de uma mulher suave e destemida que se expressa com um português fluente e em imagens fortes e poéticas. Miúda, se embrenhou por comunidades como Cidade de Deus, Complexos do Alemão e da Maré, Costa Barros e Rocinha e desbravou tradições africanas, cristãs e indígenas por cidades como Salvador, Ouro Preto e Paraty. “Apesar da violência presente no dia a dia de várias comunidades urbanas/favelas, é gratificante conhecer pessoas incríveis que trabalham para equilibrar a brutalidade com atividades educacionais como grafite, música, circo para crianças e jovens. E mesmo diante da violência, do preconceito e das desigualdades econômicas históricas no Brasil, a cultura afro-brasileira resiste e transcende.”, ressalta Maria.

Tradições culturais muito antigas e sincréticas na Índia, Etiópia, Brasil, México e Bolívia são o fio condutor dos projetos de Maria Balcazar. “Através de meus projetos testemunho rituais religiosos, cerimônias e festividades, procuro por templos, casas e locais de trabalho. Com fotos independentes, busco contar histórias sobre a vida cotidiana. Abordo as imagens a partir de uma perspectiva de Belas Artes – não com a intenção de minimizar a força da realidade, mas com o objetivo de aumentar seu valor trazendo à superfície a força interior do subjetivo. Eu gosto de testar as zonas de conforto dos espectadores enquanto toco seus sensos de empatia” explica a fotógrafa.

A obra de Maria Daniel Balcazar tem sido exibida em museus, galerias e universidades em várias cidades da Bolívia, Peru e os Estados Unidos. Em exposições coletivas, seu trabalho sobre a arte barroca andina e o povo indígena chiquitano conquistaram espaços no Peru e na Bolívia. Em 2015, Maria foi selecionada para a exposição “Mulheres fotojornalistas de Washington” (WPOW), exibida em várias cidades dos Estados Unidos. Em 2016, suas obras participaram da exposição “American Society of Media Photographers” (ASMP) no National Geographic Museum e, em 2017, no FotoGeorgetown em Washington, DC. Como membro do “Women in Photography International” (WIPI), suas fotografias estão nos arquivos da biblioteca Beinecke na Universidade de Yale, no Smithsonian Museum, no National Women’s History Museum e em outras instituições educacionais e culturais nos Estados Unidos.

Serviço: “Kilombo”
Fotos de Maria Daniel Balcazar
Centro Cultural Justiça Federal (Avenida Rio Branco, 241, Centro)
Abertura: 5 de setembro (quarta-feira), 19h
Exibição: de 6 de setembro a 14 de outubro
De terça a domingo, das 12h às 19h
Visita guiada: 15 de setembro (sábado), às 16h Grátis.

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